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Boa Aventura. Ou Desventura, como queira.

Não sei como ele apareceu ali. De repente, lá estava. O engraçado foi que eu não me assustei. Nem um pouco, veja só. O senhor de cabelos grisalhos também não era de meter medo algum, se não fosse a sua assombrosa e inexplicável aparição. Decidi ignorá-lo. De nada adiantou – pois parecia que sua intenção era também a mesma. Resolvi dar aqueles grunhidos sobrenaturais para ver se o velho se mancava, tipo, um ‘ahã...’ estrondoso. Sorriu, de leve, como se isso fosse suficiente para me responder.

***

Sua decrepitude sumiu diante da força com que o livro foi arremessado. Além de força, o velhinho mostrou boa pontaria. Desequilibrado, o chão me serviu de consolo.

***

“Leia, burro, e entenda, moleque”, ecoou pela sala na penumbra.

***

Lembrei-me das 2873 gargalhadas dadas ao ouvir as 2873 piadas do Joaquim e Manoel. “Até o fim do mês, moleque, até o fim do mês” praguejou. “E ai de você se lhe vejo por aqui”, finalizou, envolto por uma fumaça espessa e fedorenta.

Escrito por Juliano às 16h25
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Brown, o pessimista

Lester Brown, um dos mais conceituados intelectuais norte-americanos, deu o ar de sua graça apocalipticamente afamada. Em seu mais novo livro, continua alertando sobre O Fim. Antes, o mundo acabaria pelos milhões de manés subnutridos. E, ao que parece, a culpa agora é dos ascendentes chineses e indianos.

Diz o notável – eleito um dos jovens mais brilhantes dos EUA nos anos 1960 – que o mundo entrará em colapso caso o american way of life seja estendido à gigantesca população indiana e chinesa. Esse tantão de gente comendo no Bob’s e tendo dois automóveis na garagem assusta - naturalmente.

A curiosidade aqui é o eixo da discussão estar em torno dos quase dois bilhões de pessoas consumindo como um branquelo classe média estadunidense – e não, apropriadamente, da sustentabilidade do consumismo símbolo do país de Mr. Bush.

Pessimismo sempre foi seu trunfo. A idéia da Revolução Verde, posterior a 2a Guerra Mundial, teve em Brown seu entusiasta e árduo defensor. Os gráficos já apontavam para um período de transição demográfica - Brown apostou na 'Explosão Demográfica'; incorreu ainda em um erro crasso – caro também a Malthus – de não considerar que a evolução tecnológica poderia resolver alguns problemas básicos na produção e produtividade alimentar.

Brown enxergava apenas duas soluções possíveis, em seu famoso ‘Mundo em crise’ (In the human interest, 1974). A primeira, invocava o bom senso dos consumidores. Alertava para a finitude dos recursos naturais, e blábláblá. Trinta anos depois, a ineficiência desse discurso ingênuo é indiscutível. A segunda, mais bem trabalhada, mais enfática, era a responsabilidade dos Estados – principalmente aqueles dos países subdesenvolvidos – em elaborar políticas eficientes de planejamento familiar. Considerava assim que o aumento da população era um perigo ao meio ambiente. Especulava cenário dantesco caso a população ultrapassasse os seis bilhões de habitantes.

Levando em conta os recursos tecnológicos de hoje e os avanços nas ciências agrárias, a Terra suporta, tranqüilamente, oitenta bilhões de pessoas – já assegurava Milton Santos, o mais importante geógrafo que a Terra Brasilis conheceu. Sem american way of life, obviamente.

Para os verdes de plantão, nunca é demais ressaltar que o nascimento de um bebezinho no país de Brown é muito mais preocupante, para o meio ambiente mundial, que dez pimpolhos paridos na Eritréia.


[Aqui, inspiração desse post]



Escrito por Juliano às 12h41
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